Só perdeu quem ficou em casa

Nos dias 9 e 10 de setembro realizou-se a Feira Taurina de Lisboa 2021, um evento no qual organizaram-se dois espetáculos taurinos no Campo Pequeno, a cargo da empresa “Ovação e Palmas” de Luís Miguel Pombeiro que está de parabéns, pela ousadia de em tempos difíceis para a tauromaquia arriscar e montar carteis diferentes, mas acima de tudo está de parabéns pela enorme afición que tem. Os carteis podem não ter sido um êxito de bilheteira, mas foram um êxito artístico e só perdeu quem ficou em casa.

Não acredito que haja falta de aficionados, acredito sim que a grande maioria dos aficionados não tenha sensibilidade para compreender o toureio a pé e seja demasiado conservador para ver um mano-a-mano entre dois jovens cavaleiros que não criam peixeiradas na internet.

Nos tempos controversos que vivemos a tauromaquia precisa de estabilidade e não de confusões e polémicas. Precisa de ser inteligente e discreta, e não conflituosa e sensacionalista.

Corrida dos matadores: uma das melhores corridas de 2021

A corrida de dia 9, dedicada ao toureio a pé e na qual se prestou homenagem aos 40 anos de alternativa de Vítor Mendes, uma das maiores referencias no que diz respeito ao toureio apeado português, teve pouco publico, mas no que diz respeito à parte artística vai ficar para a história da temporada 2021 como uma das melhores corridas realizadas em Portugal.

Na arena estiveram quatro jovens matadores de toiros, dois espanhóis Roman e José Garrido e dois matadores portugueses Manuel Dias Gomes e Juanito.

Os quatro toureiros vieram dispostos a dar tudo. Roman entrou no cartel a substituir o anunciado Finito de Córdoba, que ao ver as fotos dos toiros que ia lidar deve ter ficado com problemas intestinais… O matador de Córdoba não fez falta nenhuma porque Roman Collado esteve muito bem nos dois toiros que lidou. Um toureiro de muita entrega e valor.

José Garrido, já tinha estado no Campo Pequeno há uns anos como novilheiro. Na passada quinta-feira já como matador, esteve em grande plano nos dois toiros que lidou. É um toureiro de raça que gosta de baixar a mão de fazer series com temple e poder. Pegou na muleta, inventou duas faenas e deixou os aficionados a sonhar

Manuel Dias Gomes, não teve opções no primeiro toiro que lidou devido à mansidão do mesmo, mas diante do sétimo toiro da corrida, armou um lio gordo como há muito não se via em Lisboa. Bonito brinde do segundo toiro que lidou a José Trincheira, “o leão do Alentejo” antigo matador de toiros português e uma grande figura do toureio a pé. Um bonito pormenor de Dias Gomes.

O mais novo do cartel Juanito é arraçado até mais não. Quis mostrar serviço, pós a carne no assador. Foram da sua autoria duas grandes faenas, em especial a última. Faenas de emoção, das que cortam a respiração e levantam os aficionados das bancadas.

De seda e prata brilharam com o capote e com as bandarilhas: Filipe Gravito, Cláudio Miguel, João Ferreira, João Oliveira e Jorge Alegrias.

Os toiros de Voltalegre e Nuñez de Tarifa, estavam muito bem-apresentados, toiros bonitos com peso e trapio, sim porque estes jovens toureiros aceitam toureiam toiros e não novilhos como a maioria das figuras de Espanha impõe quando vem tourear a Portugal, alguns querem tourear bezerros, mas com cachets de figuras. Aqui foram toiros de verdade de apresentação digna das melhores praças do Mundo. No que diz respeito ao comportamento mansos, com mais dificuldades os lidados em terceiro (Nuñez) e o quarto (Voltalegre).

Corrida à portuguesa: Grandes lides e pegas emocionantes

A casa estava mais composta que no dia anterior, mas mesmo assim aquém das expetativas para este cartel.

Marcos Bastinhas teve um lote complicado, os dois primeiros toiros que lidou tinham pouca mobilidade e transmissão. Os melhores momentos de Bastinhas foram diante do último toiro. Cravou bons ferros ao piton contrário e dois grandes pares de bandarilhas a encerrar a atuação.

João Telles, apostou no toureio ao piton contrário e concebeu três lides de grande nível. Não descurou nada, desde a brega, passando pela cravagem dos ferros e remate das sortes. Na memória ficam os últimos ferros curtos cravados ao último toiro do seu lote, uma lide brindada a Marcos Bastinhas e a Helena Nabeiro. Telles cravou ferros de praça a praça, onde a batida foi feita nos terrenos do toiro, terrenos de muito compromisso. Só existe uma palavra para descrever estes ferros: emoção!

A emoção não se ficou pelo toureio equestre, nas pegas também esteve presente. Pelos amadores do Ribatejo foram caras o cabo Pedro Espinheira à primeira tentativa e Dário Silva à segunda tentativa.

Pelos forcados de Cascais foram caras Ventura Doroteia com uma grande primeira ajuda e Carlos Dias. Foram duas grandes pegas à primeira tentativa e qualquer uma delas podia ter vencido o prémio em disputa para a melhor pega da noite.

Os amadores da Chamusca concretizaram as pegas por intermédio de Miguel Santos à segunda tentativa e um pegão emocionante de Francisco Rocha ao primeiro intento. O toiro fugiu ao grupo, mas o forcado ficou que nem uma lapa na cara do toiro. Esta foi a pega que venceu o prémio em disputa nesta noite.

O curro da ganadaria António Raúl Brito Paes estava bem apresentado, mas no que diz respeito ao comportamento foram de escassa mobilidade e transmissão.

Resumindo

Sendo realista e objetivo. Nesta altura do ano, a agenda taurina nacional sobrecarregada espetáculos. Lisboa não suporta duas corridas de toiros seguidas, em especial uma corrida só com toureio a pé. Infelizmente a maioria dos aficionados não tem conhecimentos nem sensibilidade para apreciar uma faena. A maioria gosta é de ver os cavalos a fazer números circenses e os forcados no ar.

Além disso, o país só agora começa a recuperar a crise pandémica e ainda vai demorar bastante tempo a recuperar da crise económica que afeta milhares de portugueses.

Na minha opinião uma corrida mista, tinha sido a melhor opção de forma a agradar aos aficionados do toureio equestre e do toureio apeado.

No entanto, há que dar os parabéns a Luís Miguel Pombeiro pela ousadia e pela afición. Foi uma feira de primeira, numa praça de primeira, organizada por um empresário de primeira!

foto: Pedro Batalha in Naturales