Na véspera do Aposento da Moita, mudar de cabo, o Faenas TV foi falar com José Pedro Pires da Costa (o cabo actual) e com o José Maria Bettencourt (o novo cabo). Uma coisa podemos ter a certeza, é que o Aposento da Moita vai continuar a honrar as jaquetas das ramagens ao mais alto nível, seja em Portugal ou além fronteiras!

Começamos então por ordem de antiguidade.

zep pires da costa 2

Faenas TV (FTV) – Olá Zé, sendo o teu pai o cabo fundador do Aposento da Moita, em que medida esse facto levou, a tu quereres seguir as pisadas dele?
José Pedro Pires da Costa (ZEP) – Era de facto normal que seguisse as pisadas do meu pai, até porque desde sempre e como é natural em minha casa sempre se viveu muito o Aposento da Moita, mas a verdade é que entrei no mundos dos toiros como aspirante a cavaleiro, tendo mesmo chegado a tirar a prova de cavaleiro praticante, mas a vida da muitas voltas e na minha opinião para se estar no mundo dos toiros não se pode estar sendo “mais um”, por isso após grande reflexão abdiquei desse sonho e no ano seguinte com naturalidade ingressei no GFA Aposento da Moita.

FTV – Como analisas o teu percurso como forcado amador?
ZEP – Penso que fui um forcado útil, sempre disponível ao grupo fazendo várias posições, ajudei muito mais do que peguei de caras, mas ainda assim peguei cerca de 30 toiros. O mais importante no GFAAM é ser um forcado 100% disponível para o que for preciso fazer, tanto dentro de praça como fora dela e isso acho que consegui fazer.

FTV – Que pegas ou momentos da vida do Aposento da Moita marcaram a tua carreira?
ZEP – As recordações são muitas, foram muitos anos, é sempre difícil destacar uma, diria mesmo quase impossível porque assim que penso que encontrei a que mais me marcou, lembro-me logo de outra igualmente marcante, por isso prefiro destacar aquilo que considero ser o mais valioso que levo do Aposento da Moita, que são as gigantes amizades que ganhei e que levo para o resto da minha vida.

zep pires da costa 3

FTV – Se pudesses voltar ao 1º dia em que foste cabo, farias tudo igual ou mudavas alguma coisa na forma de liderar o grupo?
ZEP – Faria praticamente tudo igual, na minha opinião um líder não se impõe, é imposto por aqueles que lidera e foi desta forma que aconteceu na minha liderança do grupo. Tentei ser sempre um líder verdadeiro e justo, partilhei sempre tudo com os elementos do grupo. Penso que é assim que se consegue consenso e acima de tudo união.

FTV – Porque decidiste terminar agora a tua actividade como forcado?
ZEP – Na nossa vida tudo tem um “timing” e eu sinto que este seja o meu, começamos a ter outras prioridades. Quando se está nos forcados, neste caso como cabo, temos de estar a 100%, inteiramente disponíveis para o grupo e nesta fase pessoal e profissional da minha vida já não sinto que tenha essa disponibilidade.
Deixo o grupo num bom momento com forcados novos, com margem de progressão, cheios de vontade. São todos muito amigos e têm bem presente a educação, os valores e os princípios do GFA Aposento da Moita.

FTV – Como esperas viver o último dia como cabo do Aposento da Moita?
ZEP – Faço o possível para não pensar muito no facto de ser o último dia, quero enfrenta-lo como um dia normal de corrida, com muita tranquilidade, paz de espírito. Quero terminar o dia com um grande sentimento de missão cumprida e aí sim irei olhar para esse dia como o “último dia”.

pires da costa - pai e filho

FTV – Se pegares um toiro nessa tarde, já sabes a quem vais brindar?
ZEP – Sei, tenho já definido o brinde, mas não queria revelar antes do momento próprio para isso.

FTV – A partir de agora como aficionado, como vais acompanhar a festa dos toiros?
ZEP – Depois de me despedir, certamente irei acompanhar a festa dos toiros bem mais tranquilo, mas sempre com seriedade, pois penso que uma festa como esta merece gente séria que encare uma corrida de toiros com respeito. Quero que a festa seja digna e verdadeira como fui habituado a vela desde pequeno, bem sei que nem sempre é assim mas sei também que ainda existem os verdadeiros aficionados.
Em relação ao meu grupo, faço questão de me manter por perto principalmente nos primeiros anos do Zé Maria e porque, apesar de me ter despedido, a minha paixão não desapareceu nem diminuiu.

Obrigado Zé Pedro. Aproveitamos a tua “deixa” e vamos a conhecer um bocadinho melhor, quem é o José Maria Bettencourt.

Para já, o que podemos afirmar, é que é um o jovem forcado de 23 anos, estudante de Agronomia, que já pegou 49 toiros ao longo das 10 temporadas, em que orgulhosamente veste a jaqueta do Aposento da Moita.

Se quiser saber mais, sobre o Homem que vai liderar o destino do GFAAM nas próximas temporadas, vai ter de ler esta entrevista até ao fim!

jose maria bettencourt - cabo gfa ap moita (1)

Faenas TV (FTV) – Boa tarde , Zé Maria para os aficionados que ainda não te conhecem, como é que descreverias quem tu és? 

José Maria Bettencourt (JMB) – Sou um jovem de 23 anos, natural de Lisboa, estudante de Agronomia no ISA e um grande aficionado à Festa Brava. Sou uma pessoa que dou muito valor à amizade e ao companheirismo, tudo coisas que aprendi e vivi no Aposento da Moita.

FTV – Como é que surgiu o gosto pela Tauromaquia?

JMB – O meu pai sempre foi muito aficionado e desde miúdo que me levava às corridas de toiros, na companhia do Padre Vítor Melícias. Eu nunca pensei vir a ser toureiro ou forcado. Certo dia o Rodrigo Castelo (ex-forcado do Aposento da Moita), que trabalhava com o meu pai, perguntou se eu e o meu irmão Vasco queríamos ir a um treino do Grupo. Eu supostamente, ia só para ver, porque tinha 14 anos e ainda era muito cedo para entrar para um grupo de forcados, o meu irmão é que ia treinar. Entretanto, eu acabei por treinar também e fazer os treinos todos dessa temporada, na qual viria a fardar-me pela primeira vez, a 19 Maio de 2007 em Vendas Novas. Nessa tarde, peguei o primeiro toiro da ganadaria Branco Núncio, toureado pelo José Prates. Foi sem dúvida alguma um dos momentos mais marcantes na minha vida no Aposento da Moita. Nesse dia percebi que o cabo (Tiago Ribeiro) confiava em mim para defender a jaqueta do Grupo. Foi sem duvida alguma, um dia que nunca vou esquecer na minha vida!

FTV – Desde 2007 anos conheceste os teus dois antecessores, o Tiago Ribeiro e o José Pedro Pires da Costa, o quê que aprendeste com ambos?

JMB – Os dois são pessoas extraordinárias, gosto muito tanto do Tiago Ribeiro, como do José Pedro Pires da Costa. São duas pessoas completamente diferentes, mas isso foi muito bom para a minha carreira como forcado. Foi ter aprendido com duas pessoas que percebem muito de toiros e com dois grandes forcados. O Tiago Ribeiro, foi quem me ensinou a pegar, foi quem me deu os primeiros passos, e o Zé Pedro acabou por colmatar os meus erros e quis fazer de mim um grande forcado e que eu marcasse o Mundo dos toiros, espero que um dia isso aconteça.

jose maria bettencourt - cabo gfa ap moita (2)

FTV – Como é que se controla a ansiedade diante de um toiro?

JMB – A ansiedade acaba quando entramos dentro da arena. Ela está presente, assim como a responsabilidade de honrar a jaqueta do Aposento da Moita. Mas quando o forcado entra na arena, abstrai-se de tudo, o prazer é tanto que lá dentro só queremos dar o nosso melhor e pegar o toiro com galhardia.

FTV – Como lidaste com o acidente do Nuno Carvalho “Mata”?

JMB – Sabes Diogo, foi graças ao Nuno Carvalho “Mata” que eu sou forcado. Aquele momento, foi uma tragédia que abanou os pilares do Aposento da Moita. Foi sem dúvida um momento terrível. Na altura pensei em desistir e que nunca mais me vestia de forcado na vida. Mas o Nuno foi o primeiro a dar força e um dia, com o Grupo todo reunido, o Nuno disse-nos uma frase que nunca mais me vai sair da cabeça: “não deixem que este acidente tenha sido e vão” e nesse momento o Grupo volta a crescer e a solidificar-se e a querer levar a instituição Aposento da Moita, ao sitio onde deve estar na Tauromaquia.

FTV – Alguma vez pensaste em ser Cabo do Grupo?

JMB – Não tinha essa ideia, mas acho que uma pessoa que goste de um grupo a sério pode sempre pensar nisso. Eu pensei, mas não era um objectivo. Gosto muito do Aposento da Moita, mas era uma responsabilidade muito grande. Eu gosto de responsabilidade em tudo na vida, porque senão deixamos que a vida nos passe ao lado e não é isso que eu quero. Acho que vai ser uma responsabilidade enorme, mas não vou fugir dela e vou fazer tudo o que estiver ao meu alcance para elevar bem alto o nome do Aposento da Moita. É sem duvida alguma um dos maiores desafios da minha vida!

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FTV – A partir de agora passa a estar nas tuas mãos a responsabilidade de escolher quem vai à cara do toiro, como vais lidar com essa situação?

JMB – Eu acho que preferia pegar os toiros todos. É uma responsabilidade enorme mandar uma pessoa pegar um toiro, mas vai correr bem e o Aposento da Moita vai fazer grandes pegas! O meu maior desafio, vai ser escolher o forcado certo, tendo em conta as características do toiro. Mas espero ser capaz disso!

FTV – Como vês na actualidade o estado da Tauromaquia a nível nacional?

JMB – Há algumas (poucas) pessoas dizem que a Festa Brava está em crise, para mim é uma época de oportunidades. Há bons forcados, bons toureiros e bons toiros. Os carteis só não estão aí se as pessoas não quiserem. Haja aficion e vontade de triunfar, que a Festa Brava nunca vai acabar!

FTV – Para terminar, o que é (para ti) ser forcado?

JMB – É ter 30 irmãos em vez de 2 ou 3. É ter um grupo de Amigos que está disposto a dar a vida por nós e que está sempre presente em todos os momentos da minha vida, é como se fosse um segundo casamento que temos na vida.

Muito obrigado a ti e ao José Pedro Pires da Costa por esta entrevista. Um abraço e sorte para a corrida de amanhã!

moita - 22 maio 2016

fotos: DR